quarta-feira, 21 de julho de 2010

SIMÃO, NO EVANGELHO DE S. MATEUS

Neste evangelho, encontramos o seguinte texto: “Também Eu te digo: Tu és PETROS (Pedra) e sobre esta PETRA (Rocha) edificarei a Minha Igreja (…)” – S. Mateus 16:18 (sublinhado nosso). No evangelho de S. João, como vimos, este propõe-nos o termo aramaico Kephas e a sua respectiva tradução. Neste, foi conservada a matriz grega de duas palavras: PETROS e PETRA, só que, sem tradução proposta pelo próprio evangelho!
Que significarão estas duas palavras tão parecidas – PETROS e PETRA? Acompanhemos a leitura do seguinte comentário explicativo: “O substantivo feminino Petra designa no grego profano preferentemente uma “rocha” grande e firme (…). O substantivo masculino Petros é aplicado geralmente a blocos rochosos e isolados, bem como a pedras pequenas, tais como a pederneira e a pedra de arremessar”. Portanto, para já, parecem claros os respectivos significados das palavras propostas pelo evangelho:
 PETROS = Pedra pequena de arremessar;
 PETRA = Rocha grande e firme.
À luz desta preciosa informação, façamos uma pequena pesquisa bíblica. Esta palavra: PETRA (Rocha) – aparece apenas cinco vezes no Novo Testamento: 1- Mateus 16:18; 2- Romanos 9:33; 3- I Coríntios 10:4; 4- I Pedro 2:8; 5- Apocalipse 6:15. A nível da tradução encontramos algumas variantes sobre a mesma palavra, o que não deixa de ser bastante significativo e, ao que parece, demonstra certa intenção dos tradutores da versão por nós seguida! Vejamos o quadro comparativo:
Aqui encontramos a palavra – PETRA – ora traduzida por: “Rocha, rochedo”, ora por “Pedra”! No texto de S. Mateus 16:18, a mesma palavra foi traduzida por “Pedra” , para estar em maior consonância com a palavra aramaica – Kephas (pedra de arremessar) dada no evangelho de S. João, aplicada a Simão Barjonas!
Ora, se no texto de S. Mateus, se trata da mesma pessoa, então será mais do que natural que a tradução assim seja, para que a acção recaia sobre a mesma pessoa – Simão Barjonas!
Pelo quanto pudemos ver até aqui, traduziríamos o texto de S. Mateus da seguinte maneira: “(…) Tu és PETROS (pedra, seixo de arremessar), e sobre esta PETRA (Rocha grande e firme) edificarei a minha Igreja (…)”.
Quão bom é que nos abeiremos dos textos, respeitando o que eles dizem, e não fazendo dizer o que queremos que digam! É devido a exemplos destes, traduções tendenciosas e afins que, infelizmente, assistimos ao nascimento de todo o tipo de Movimentos religiosos.
Assim, repetimos, o que o Senhor disse a Simão Barjonas: que este se chamaria Simão PETROS (pedra, seixo de arremessar), um nome que correspondesse com a sua conhecida instabilidade emocional, e nunca Simão PEDRO, tal como vulgarmente o conhecemos, visto que este nome – PEDRO - e nunca é demais repetir, não significa coisa alguma!
E depois, prezado leitor, por um instante, imaginemos que Jesus quisesse chamá-lo pelo nome próprio de Pedro! O que quereria Jesus dizer com este novo nome, repetimos, caso fosse, como querem fazer crer, um nome próprio? Jesus estava a caracterizar quem e o quê? Confessemos que não compreenderíamos esta atitude de Jesus – dar um nome por dar, sem que este tivesse qualquer significado! A palavra Pedro, tal como a conhecemos, significa o quê? Caso cheguemos a alguma conclusão, define o quê? E se o compararmos com o contexto até aqui desenvolvido, que sentido terá este nome próprio – Pedro - para que este substituísse o de Simão?
Para colocarmos ainda mais em destaque este raciocínio façamos uma simples comparação com outro caso paradigmático, embora em contexto diferente:

Ora, por que é que estes foram assim chamados?
1- Quanto a Simão – tal como já o vimos, este sobrenome tinha a única finalidade de fazer jus aquilo que Simão era - “(…) um homem inconstante”;
2- Quanto a Tiago e a João – somos, de novo esclarecidos sempre no mesmo propósito, pois este sobrenome era para “(…) qualificar o seu ímpeto”. (sublinhado nosso). Nada mais!
Para que não tenhamos qualquer dúvida acerca do seu carácter e impulsividade, leiamos um episódio, passado com estes dois irmãos, para nos apercebermos a que ponto estes tinham os nervos à flor da pele, como se costuma dizer. As Escrituras assim o revelam: “Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-Se repreendeu-os” – S. Lucas 9:54,55.
Portanto, caríssimo leitor, uma vez mais reiteramos que: as palavras – PEDRO e BOANERGES; estas não são - NOMES PRÓPRIOS - mas qualificativos de uma personalidade - uma qualidade de carácter! Se fossem nomes próprios, como vulgarmente se aplica a Simão, então porquê só à pessoa deste e não a estes dois irmãos – Tiago e João? No mínimo é INJUSTO! E depois, se Jesus não quisesse dizer isto mesmo, isto é, qualificá-los, para que lhes iria acrescentar um nome próprio ao anterior? Só para mudar por mudar? Só, para que, tal como vimos acima, acerca da problemática do nome, isto é, quando alguém dá o nome a outrém tem, de imediato, direitos acrescidos sobre eles? Claro que não!
Não creia o prezado leitor que estamos sozinhos nesta conclusão! Ora veja: “(…) o propósito não era mudar-lhes o nome, em sinal de domínio sobre eles”. Será possível ainda continuar a chamar-lhe – Pedro - quando o seu verdadeiro nome é SIMÃO BARJONAS?! Geralmente, é com esta designação que é referenciado nas Escrituras: Simão PETROS (o pedra), - para melhor definir o seu carácter inconstante! E assim ficará conhecido na história bíblica!
Por outro lado, perguntamos: Se, ao nos referirmos a Simão, chamamos-lhe sempre – PETROS (traduzido erroneamente por PEDRO, como vimos); então por que é que, ao citarmos estes dois irmãos – Tiago e João – nunca os chamamos e conhecemos pelos seus respectivos apelidos (alcunhas) de: BOANERGES (Filhos do trovão)? Quando queremos citar S. João e S. Tiago nas Escrituras – citamos os seus nomes, não a sua alcunha, característica que apontava para os seus defeitos de carácter - Boanerges (Filhos do trovão). Mas, quando queremos citar Simão Barjonas, as suas epístolas, não o citamos pelo seu verdadeiro nome, mas pela alcunha - CEFAS (PETROS = Pedra) – PORQUÊ? Não só o tratamento é desigual, como também se Simão Barjonas ressuscitasse ficaria triste por lhe chamarem por um nome que nunca conheceu! Porquê? Pela simples razão que nunca o teve! E ninguém gosta de ser chamado pelo nome de outro não é verdade?!
Não deixa de ser curioso quando comparamos alguns textos, para vermos realçado o recurso aos diferentes nomes desta personagem. Vejamos:

O que é que salta aos nossos olhos deste quadro comparativo? Ora veja:
1- Coluna do Apelido: - Agindo assim, cremos que o Senhor coloca em destaque a personalidade inconstante desta personagem! Em todas as promessas; em tudo o que se relaciona com o seu comportamento dúbio, está sempre associado o seu apelido.

2- Coluna do Nome de nascimento: - Vemos que no texto que antecede a famosa declaração – S. Mateus 16:18, Jesus elogia a mesma personagem! E como a trata? Simplesmente pelo seu nome de nascimento: “Simão Barjonas” – S. Mateus 16:16.
Depois, a maneira como Jesus fala com ele, para o reabilitar, visto que O negou três vezes! Como é que Jesus faz? Uma vez mais, recorre ao seu nome de nascimento e não ao apelido! Porque aqui Jesus chama-o, reabilita-o, igualmente, por três vezes! Era necessário passar de PETROS (pedra, seixo instável) para, Simão (o que obedece, o que sabe ouvir)!
Certa vez andaram à procura deste discípulo de Jesus e, como é que perguntaram por ele? Vejamos: “Envia, pois, emissários a Jope e manda chamar Simão, cujo sobrenome é… (Petros – o pedra) ” – Actos 10:32. Como sempre, o seu verdadeiro nome, em primeiro lugar, depois, o apelido, a alcunha, pela qual também era conhecido!
Estaremos a ser radicais, prezado leitor? Pensamos que os textos nos revelam exactamente esta vertente – basta querer vê-la! No entanto, caso estejamos enganados, seremos os primeiros a reconhecer, após análise das respectivas provas documentais!
Um caso parecido com este é o do filho de Abraão – Isaac! Este sim, é um nome próprio! Mas, qual a sua origem? A Palavra de Deus nos esclarece. Uma promessa tinha sido feita a Abraão e Sara, sua mulher; estes iriam ter um filho! Só que, pela sua avançada idade, após este anúncio, ambos se riram!
Vejamos: “(…) Sara, tua mulher, terá um filho (…)” – Génesis 18:10; “Sara riu-se (…)” – v. 12; “(…) a quem chamarás Isaac (…)” – 17:19; “Ao filho que lhe nascera, deu Abraão o nome de Isaac” – 21:3. Porquê este nome e não outro qualquer? A razão é muito simples! Só porque riram da promessa, pois bem, esta falha estaria para sempre diante de si, na pessoa do seu filho! Este nome “Isaac (Yishak’el) tem como raiz o verbo (Sahak = rir)”.
Assim, prezado leitor, “o filho da promessa está, pelo seu nome, associado ao rir de Abraão e de Sara (…)”. Portanto, cada vez que pronunciassem aquele nome recordar-se-iam da sua falha de carácter. Cada vez que o chamassem, na nossa língua diziam: “Ó risota, vem cá”; ou ainda “Ó risota, vai ali comprar ou fazer isto ou aquilo”, etc, etc. Neste caso, é um NOME PRÓPRIO. Não uma “alcunha” ou apelido como o termo “PETROS”!
Se ainda restassem quaisquer dúvidas, bastaria perguntar: Como é possível, à luz do texto de S. Mateus, a mesma personagem – Simão – ser, em simultâneo PETROS (pedra pequena, tal como a pederneira e a pedra de arremessar) e PETRA (rocha grande e firme)? Só mesmo querendo fazer dizer aquilo que o texto não diz! Ou a Jesus, o que nunca pensou ou disse! A nós, de tirarmos as ilações que se impõem!
b) A opinião dos Pais da Igreja
Os Pais da Igreja afirmam que a Pedra de fundação da Igreja é a confissão que Simão tinha acabado de fazer, isto é, que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Antes de mais, bastaria recordar o texto citado acima, de S. Paulo ao afirmar peremptoriamente que “(…) todos bebiam de um (PETRA) rochedo espiritual que era Cristo” – I Coríntios 10:4; e também o próprio Simão que, ao citar o Antigo Testamento – Isaías 28:16 - declara, no texto supra, que Cristo, ele e só ele, é a “(…) (PETRA) pedra, de escândalo” – I Pedro 2:8. (Aqui traduziríamos, para estar em consonância com as restantes traduções e também com o original, a palavra PETRA, por rocha, rochedo). Dúvidas, quem as terá? Só com muito má vontade em não querer aceitar a evidência da clareza textual! Vejamos alguns testemunhos dos Pais da Igreja:
 S. Hilário de Poitiers (316-367) – “Ele, a nossa única e inamovível fundação, a nossa bendita e única rocha da fé, é a confissão feita pela boca de Pedro”.
 S. João Crisóstomo (354-407) – a) “Ele é que construiu a Sua Igreja sobre a confissão de Pedro (…)”. b) “Sobre esta confissão (de Pedro) Eu edificarei a Igreja (…)”.
 S. Agostinho (354-430) – Sobre esta rocha, disse Ele, que tu confessaste, Eu edificarei a minha Igreja. Com efeito, Cristo era a rocha”.
 S. Gregório Magno, (590-604), Papa – “(…) mas persiste na fé verdadeira e a tua vida sobre a rocha da Igreja; isto é, sobre a confissão do bem-aventurado Pedro”. 
Bibliografia:

Manuel de Tuya, O. P., op. cit., p. 508
Ibidem
Alcunha” - Nome dado a alguém e geralmente derivado de certa particularidade física ou moral – cf. J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo, op. cit., p. 59
Gerhard Von Rad, La Genèse, p. 234
Frank Michaeli, Le Livre de La Genèse, Chap. 12 à 50, Genève, Ed. Delachaux et Niestlé, 1960, p. 57
Jacques Le Goff “História” in Enciclopédia Einaudi - Memória-História, p. 219
A. Van Der Born “Cláudio” in  A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 277
Gunther Bornkamm, Paul, Apôtre de Jésus-Christ, Genève, Ed. Labor et Fides, 1971, p. 139
Introdução ao Tratado sobre a Trindade, Livro 2.23
Homilias do Evangelho S. Mateus, Homilia 82.3 (S. Mateus 26:26-28)
Homilias do Evangelho S. João, Homilia 21.1 (S. João 1:49,50)
Comentário ao Evangelho de S. João, Tratado 124.5 (S. João 21:19-25)
Epístolas, Livro IV, Epístola 38
Vidas de Homens Ilustres, cap. 1
B. Hemelsoet “Pedro”  in  A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 1172
J. A. Thompson, op. cit., p. 276

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